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É possível uma educação integral?


Informações sobre o último PISA 2015 apresentam o fraco desempenho de nossos alunos brasileiros. Jovens entre 15 e 16 anos de 70 países foram avaliados em matemática, leitura e ciências, deixando nosso país nas últimas posições e esse resultado vem caindo. Estar em 55º não é nada confortável e nem agradável. Mas antes de pensarmos em indicadores que apresentam o quanto nossos alunos estão em defasagem é necessário também pensar em tudo que envolve o ensino, uma vez que todo esse caos que vivemos tem sempre como foco do problema o professor. Analisar o ambiente de ensino, as políticas públicas e o próprio desenvolvimento do país se faz necessário para que compreendamos todas essas informações que nos chegam a respeito de uma educação em declive.


O aluno, ao sair da educação básica e ingressar em uma faculdade para realizar o tão sonhado curso de graduação como forma de ascensão social e econômica está cada vez mais difícil. É notória a concorrência nos vestibulares, os altos custos das universidades e provas que cobram cada vez mais um conteúdo baseado quase que na “decoreba”, deixando de lado o famoso pensamento crítico e reflexivo tão presente de forma escrita nos projetos pedagógicos, mas quase sem aplicabilidade na realidade. Outro ponto de contestação são as apostilas intermináveis nas redes particulares, com aulas que chegam a um número exaustivo de mais de 40 horas semanais contra alunos que revezam entre professores de química ou física na rede pública. Como então pensar em um aluno que possa se superar todos os dias e chegar a uma vida adulta com o famoso “desenvolvimento integral” e com capacidades analíticas, criativas, cívicas, de liderança, empreendedorismo e além de tudo isso ter conhecimento acadêmico e escolar satisfatórios?


Em dezembro de 2017 o Conselho Nacional da Educação – CNE aprovou a Base Nacional Curricular – BNCC,

documento que estabelece as diretrizes para a elaboração de currículos em todas as escolas do país. O objetivo desse documento tão discutido é que as escolas públicas e privadas deverão adequar seus currículos de Educação Infantil ao Ensino Médio, lembrando que a última etapa da educação básica, o ensino médio, ainda está em pautas de discussão. Um dos pontos relevantes da BNCC é a formação integral do aluno, fazendo com que as instituições escolares e todos os envolvidos se preocupem com o desenvolvimento de competências sociais e emocionais de crianças, jovens e alunos.

Muitos serão os desafios de todos os educadores para que até 2020 a Base esteja sendo trabalhada nas escolas, e cabe nesse momento perguntar-se: estamos preparados para nos adequarmos a BNCC buscando a formação integral do aluno? Trabalhar a formação continuada e permanente dos professores, revisão de materiais didáticos e avaliações necessitam de um olhar atento. Todas as demandas relacionadas a essa implementação necessitam de muita reflexão para a elaboração das propostas curriculares das diferentes etapas da escolarização e das redes educacionais.


Pensar em formação humana e integral é falar em ruptura, decisão e posicionamento. É ter consciência de como atuar no mundo em função das finalidades a que se propõem educandos e educadores “ao terem o ponto de decisão de sua busca em si e em suas relações com o mundo e com os outros” (FREIRE, 2005, p. 103). Sabemos que cada um de nossos alunos vão à escola com vários objetivos, e ao pensarmos em um currículo que esteja baseado na formação humana, este deve ser desenhado a partir do que não está acessível às pessoas, principalmente em nossa sociedade excludente. O acesso a bens culturais como a literatura, atualização científica e produção artística, além dos conhecimentos teóricos, devem ser facilitados pela escola e seu currículo.


Hoje, os alunos têm se tornado reféns de livros didáticos, apostilas e avaliações de larga escala, uma vez que muitas das redes de ensino, incluindo também os vestibulares, têm se baseado nessas avaliações para formular suas matrizes curriculares. A qualidade da educação também é mensurada através das metas atingidas no aprendizado. Este é um ponto indicador de que a escola planeja seus currículos no que é cobrado nos exames, uma vez que assim será cobrada pelas políticas públicas. Aí está mais um dos grandes desafios das escolas: elaborar seus currículos baseados nas necessidades de seus alunos e não somente em indicadores.


Outro ponto: como avaliar a qualidade da educação a partir de uma Base Comum se também temos um enorme contingente fora da escola?

Este então é um outro desafio para implantação e execução do novo documento apresentado. De nada adianta termos um documento norteador de educação para todos se o mesmo não atingir quem realmente está à margem dessa educação. Saber que a classe mais pobre de nossa sociedade e os marginalizados por excelência ainda não tem acesso à educação, deixa dúvidas em relação a real efetividade do trabalho para se atingir a formação integral do aluno. Também deve-se levar em consideração as políticas públicas que possam promover o acesso à escola como também a permanência de todos, proporcionando a diminuição dos índices de reprovação e evasão.


O momento atual é delicado. Utilizar-se de uma proposta governamental que aposta em “Todos pela Educação” e o desenvolvimento de uma educação integral é também abordar a educação no viés da prática docente e qualidade do ensino, refletindo acerca da cultura e comportamento do professor, através dos variados espaços e tempos, incluindo a atualidade. É relevante que o profissional da educação compreenda que a mesma se dá de forma integral, atendendo a todas as dimensões do indivíduo: física, intelectual, social, emocional e simbólica. Para tal desenvolvimento, é necessário então discutir sobre a carreira docente, sua formação inicial, continuada e permanente, conteúdos, avaliação e formação ética, a fim de resgatar valores e atitudes que favoreçam a educação realmente para todos.


O pensar em uma escola pública e privada de qualidade, pressupõe, além da formação e informação, a superação de índices que apontam para a defasagem do processo de ensino/aprendizagem, tanto em relação às esferas macro políticas quanto nas microrrelações, ou seja, a sala de aula. A transformação da escola também deve estar proporcionalmente ligada às grandes mudanças que ocorreram nos últimos anos no que diz respeito à legislações e inovações no processo educacional, visto que são vários os papeis desempenhados dentro da instituição escolar e por ser um local que está em constante transformação, exige de todos os envolvidos um processo de mudança para atender aos inúmeros e crescentes desafios de uma geração cada vez mais crítica diante da real função da escola.

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